sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Uma noite em 64: A ditadura militar no Brasil

Madrugada de 31 de março de 1964, tropas do exército ocupam postos estratégicos em vários estados e exigem a deposição do então presidente, João Goulart. A verdade da manhã de 1º de abril, o Brasil já possuia novos governantes.

Engana-se quem pensa que os militares simplesmente organizaram as tropas e tomaram o poder, assim como que eles agiram sozinhos. Quem os conduziu ao poder foi a própria burguesia brasileira, medíocre e hipócrita, reagindo às transformações sociais do então presidente.
Para entendermos o golpe civil-militar de 64, é necessario primeiro voltarmos a alguns fatos que o antecederam:

1º O sistema eleitoral da época

Bem diferente de hoje em dia, o vice não era necessariamente do partido do presidente. Isto é, nas eleições, o mais votado se elegia tendo o 2º colocado como seu vice. Este sistema permitiu a bizarrice de termos, nas eleições de 1961, Jânio Quadros (União Democrática Nacional - UDN) e João Goulart (PTB). Em termos de hoje, imagine um governo composto por um presidente do PSDB e um vice do PT. Tinha tudo pra dar errado...


2º Jânio Quadros, o "presidente vassorinha"

O Brasil acabava de sair da Era JK, o "presidente bossa nova", um período de grande efeverscência cultural, desenvolvimento industrial e de astronômico crescimento da dívida externa. Desta forma, o demagogo Jânio Quadros se apresentou nas eleições de 61 com uma vassora, que usaria para "varrer" a corrupção do país, rejeitando a herança populista de Juscelino Kubtschek.

Vencendo, seu governo foi marcado por tantas trapalhadas que acabaram por desgasta-lo tanto entre os setores mais conservadores da sociedade brasileira, a quem representava, até o povo em geral.

Assim, numa jogada mal calculada, afirmou que reunciaria se sua aprovação popular não melhorasse. Obviamente o povo não o carregou em seus braços como previra, e ele teve que cumprir sua sentença.

3º Jango e as reformas de base

Com a renúncia de Jânio Quadros, naturalmente o poder passou para o vice João Goulart, conhecido como Jango. Herdeiro político de Getúlio Vargas, uma de suas primeiras ações foi lançar um projeto de "reformas de base", que incluíam o início de um processo de reforma agrária, distribuição de renda, além de várias mudanças sociais e políticas que visivelmente beneficiavam a população em geral. Jango também limitou a remessa de lucros das multinacionais para suas sedes, fortacelendo o operariado.

Jango passava longe do que na época era ser um comunista, mesmo assim a Direita brasileira, intimamente ligada aos interesses dos EUA, iniciou uma intensa campanha difamatória contra o presidente, ainda mais depois da aproximação comercial do Brasil com a China de Mao-Tsé-Tung.
Não pode ser desconsiderado aqui que estávamos no auge da guerra fria, e no ocidente eram difundidas as mais absurdas propagandas anticomunistas.

Receosos da dimensão que poderiam tomar estas medidas populares, parlamentares agiram rapidamente, impondo um plebiscito para trocarem o sistema presidencialista pelo parlamentarismo, onde o eles próprios governariam e o presidente seria apenas uma figura decorativa. No entanto, a população rejeitou este novo sistema, e Jango saiu fortalecido.

Não obstante, a campanha difamatória se intensificou, e a mídia alardeava que o país estava rumo a um governo comunista em que a população seria massacrada e a religião destruída. Acusações falsas brotavam a todo instante e eram exaustivamente exploradas pela impensa.

A paranóia chegou ao ápice em 13 de março de 64, quando cerca de 500 mil pessoas saíram às ruas do Rio de Janeiro na "marcha com Deus pela liberdade". O circo estava armado e a maioria dessas pessoas talvez nem desconfiasse ou sabia exatamente o que estava "combatendo", e que os militares já estavam prontos para assumir o poder.

4º "Lições" do golpe

É importante termos em mente que o golpe civil-militar de 64 não foi necessariamente dos militares, mas da burguesia brasileira. Os militares, convocados para "colocar ordem" no país, por outro lado, seguiram suas por outras trilhas e endureceram o regime em dezembro de 1968, quando através do Ato Institucional nº 5 (AI-5), mostraram a face mais cruel da repressão. Nesta época, o cidadão brasileiro tinha 3 opções: vivia como se nada estivesse acontecendo, fugia ou se exilava do país ou ficava na clandestinidade lutando contra o governo, colocando a própria vida em  risco nas mãos dos milicos militares.

No começo, essa elite fez vista grossa ao que estava acontecendo, dando total apoio aos desmandos do governo. Quando a situação mudou e o povo já não conseguia mais conter a insatisfação, ela colocou seu rabinho entre as pernas e se revestiu de libertadora, escondendo que fora ela própria que os havia conduzido ao poder.

Bom, este foi um texto bastante didático e sintetizado sobre um período tão nebuloso e cruel da nossa história, mas que precisa ser bastante compreendido para que não se repita. Preste atenção ao nosso moomento histórico, esteja sempre vigilante e tenha senso crítico em relação a tudo que lê e assiste. Ao ler as notícias, sempre questione: quem escreve, pra quem escreve, e com quais interesses escreve. Assim você saberá discernir  um jornalismo sério de outro que age em favor de interesses econômicos e, sem a mínima ética, descaradamente manipula a verdade e a população.

Se gostou ou não do texto, deixe um comentário, pois sua opinião é muito importante para mim!

Se quiser, me siga também no twitter: www.twitter.com/ale_historiador

Abraço!
Alessandro Santana

17 comentários:

  1. Muito bom prezado Alessandro. No tamanho certo . Vc me lembrou da mecânica Presidente e Vice. Vc já imaginou ?

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  2. concordo em partes,,,mas a burguesia foi mais um fantoche nas mãos dos assassinos norte-americanóides , assim como a maldita classe média reacionária da época , que se dizia cristã....

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  3. Sou professora de História, e realizando algumas pesquisas, encontrei seu texto. Gostei muito, bem articulado e numa linguagem de fácil entendimento. Acho que meus alunos se identificarão com sua forma franca de criticar.

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  4. Parabéns Alessandro, você escreve muito bem! Saudações....André Gajevic

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  5. Oi André, muito obrigado pelo comentário!!!

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  6. naõ entendi porra nenhuma do que vc escreveu talvez porque eu tomei uma pinga antes de lê

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  7. parabéns alessandro. você escreve muito bem; mas acho que as coisa não ficaram melhor para aclasse baixa de lá para cá.abraços ronaldo

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  8. CARO ALESSANDRO, GOSTO MUITO DO SEU BLOG E O LEIO CONSTANTEMENTE, POIS SOU GEÓGRAFA, MAS EMBORA TENHA DIFICULDADES COM HISTÓRIA, PROCURO ENTENDER PARA DAR AULAS DE GEOGRAFIA, POIS ANDAMOS JUNTAS...TENHO DÚVIDAS A RESPEITO DA POSIÇÃO DE HUGO CHAVEZ E SEU GOVERNO, TERIA ALGUMA SEMELHANÇA COM CUBA? POR FAVOR SE VC PUDER ME RESUMIR OU PASSAR UMA DICA DE LEITURA SOBRE, EU ADORARIA, GRATA, BJ!

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  9. Você é muito didático! Parabéns. Foi o texto mais esclarecedor que já li! Você é um ótimo educador.

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  10. Ual, muito obrigado!! Volte sempre por aqui...

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  11. Olá,
    Estou com 22 anos, estudei em escola pública e somente agora comecei a buscar mais, sobre tal período de tamanha importância na história do nosso País. Fico chateado porque somente agora por conta própria é que tive o interesse em buscar aprender e saber mais sobre um assunto, o qual, a "educação pública" pouco parece enfatizar sobre o período. Digo isso porque quando estudava, pouco se falou à respeito, e do jeito que vão as coisas, acredito que de lá pra "cá" só piorou quanto às demais gerações de alunos após mim, saber o que realmente ocorreu em nosso país.
    Mas não culpo aos educadores em 100% de culpa, não mesmo! Sou ciente do meu porcentual de culpa, pela falta de curiosidade na época também.
    Mas não deixo de pensar, claro, que "alguns grandões" do poder são os mais responsáveis pela precariedade na educação do nosso país, fazendo com que tal fato não fosse importante para as demais gerações saberem. Empurrando para elas, assim como foi comigo, conteúdos de "importâncias" relevantes o suficiente para não gerar em nós, interesse algum pela política, e assim, continuarmos como "zumbis" e leigos o suficiente para permanecerem no poder.
    Obrigado Alessandro Santana, por expor a nós até então "leigos",(risos) assuntos de fundamental(volto a repetir)importância.

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  12. Incrivel como este texto retrata um versão extremamente parcial e comprometida dos fatos. Deverias te envergonhar com a tua falta de articulação, principalmente quando tu sequer comentas as reais redes que serviram nos bastidores do golpe. Por exemplo, obviamente, a influência VITAL norte-americana financiando os movimentos militares e utilizando-os como marionetes para servir o seu interesse na época. Articulando a isso, em nenhum momento tratou o golpe militar como um movimento em boa parte externo, apenas tua falta de engajamento achando que o fenomeno do golpe foi pontual e não teve relação alguma com os movimentos autoritários na América Latina. Enfim, tua análise é TOTALMENTE superficial de um aluno que repassou a matéria em tópicos e arrancou a pagina dos "motivos vitais" e pressões externas. "Isso" que tu contas não tem nada de história, pois teus fatos estão realmente distorcidos! Recomendo, em nome da legitimidade do teu site, buscar um pouco mais de história em livros e visões de autores renomados acerca dos teus fatos pesquisados. Lamentável, não vou nem me dar o trabalho de ler sobre o artigo dos Beatles para não me incomodar com as tuas referências, ou melhor wikireferências...Saudações

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  13. Bom, primeira medida, retirei a possibilidade de comentários anônimos do blog. Muito fácil e de nenhum caráter escrever um tanto de coisas e depois se esconder sob a máscara do anonimato.

    Em segundo lugar, acho que te faltam algumas aulas de interpretação de textos. Pois te passou despercebido a função primeira do blog, que é montar textos didáticos e objetivos para complementar minhas aulas, e também a própria linguagem rápida e dinâmica do formato "blog". Tenho base suficiente para escrever um artigo científico, assim como já tenho publicados (procura meu nome no google), mas esse não foi meu objetivo.

    Outro ponto importante. Sei muito bem da influência e interesses dos EUA no golpe, mas o foco do texto está nas questões internas que levaram ao golpe e que, com toda certeza, tiveram muito mais peso na balança. Houve o golpe não apenas por vontade dos EUA, mas principalmente por vontade de uma burguesia retrógrada e de militares sedentos por poder, tudo isso dentro do contexto da guerra fria, e dizer o contrário somente alivia a barra desse bando que governou nosso país por tantos anos e fez todas aquelas atrocidades que já sabemos.

    Espero sua resposta,

    Abraço!

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  14. Parabéns pelo texto, Alessandro. Super esclarecedor. Adoraria ter tido essa aula no ensino médio :)

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